04 novembro, 2007

A Problemática do Hijab

O uso do hijab (lenço) foi, há algum tempo, motivo de grande debate na Europa. No entanto, a questão foi mais acesa em França do que em qualquer outro lugar.

Na raiz das dores de cabeça europeias com o hijab está o medo do extremismo muçulmano, mas será que manter o cerco a um símbolo garante a segurança de um Estado? Arrisco uma resposta: a proibição do uso do hijab, ou de qualquer outra peça de vestuário muçulmana constituirá um claro obstáculo ao já difícil processo de integração das comunidades muçulmanas na Europa.


Embora muitas mulheres sejam obrigadas a cobrir-se, muitas fazem-no de livre vontade. Para estas mulheres, o hijab constitui uma parte indispensável da sua identidade pessoal e, como tal, não deveria ser posta em causa. O hijab representa os valores tradicionais de honra, virtude, modéstia e competência no lar.

As mulheres muçulmanas escolhem cobrir-se por diversas razões. Algumas fazem-no para parecerem honradas, ganhando assim o respeito na sua comunidade local. Outras encaram-no ao contrário das suas arrojadas roupas ocidentais, como uma protecção contra os indiscretos comentários e o assédio sexual de que, por vezes, são vítimas. Neste caso, poder-se-á ver no uso do lenço uma reivindicação de cariz feminista, ou seja, o hijab obriga os homens a respeitá-las, não pela sua aparência mas pelo seu intelecto. Há ainda a acrescentar as mulheres que o usam por uma questão estética, tanto em voga no seio de algumas muçulmanas abastadas, que demonstram os seus lenços coloridos de marca patenteada.



Em contrapartida, há mulheres que são obrigadas a cobrirem-se pelos maridos e pais. Para estas mulheres, o lenço é muitas vezes a única solução, se não querem que os pais as proíbam de frequentar escolas mistas. Nestes casos, estados como a França e Turquia, que adoptaram políticas de proibição do seu uso em escolas públicas, impedem muitas raparigas de conseguirem uma educação, diminuindo assim as possibilidades de uma integração adequada na sociedade.

Este é, sem dúvida, um debate com muitos prós e contras. Talvez fosse melhor que os Estados apostassem na promoção de mais e melhores políticas de integração no combate ao tão assustador extremismo muçulmano. O mesmo alerta serve para as feministas ocidentais que promovem os direitos das mulheres. Respeitem o direito de escolha das muçulmanas no lugar de tentarem impor os seus preconceitos ocidentais.


2 comentários:

Madison disse...

Preconceitos ocidentais? Now *that's* funny!

Estas mulheres são obrigadas a usar lenços da cabeça por oposição religiosa e por maridos e familiar e *nós* é que somos preconceitosos?

Pois é, as mulheres ocidentais se foram a países muçulmanos são muitas vezes obrigadas a cobrirem-se totalmente - quantas jornalistas internacionais já não tiveram que noticiar situações a partir destas regiões com uma burka ou definição equivalente para respeitar costumes? - mas quando a situação é inversa, já podem vir para os países ocidentais fazer exigências?

Não poderia discordar mais da tua opinião cara amiga. Apesar de não ser grande amiga dos ideais franceses no geral, simpatizei com esta decisão do governo francês. Se estão noutro país de livre vontade, ou mesmo por força maior, então que se adaptem o mais que possam. Como mulher europeia, emancipada e liberal que considero ser, vejo que os países ocidentais continuam a pactuar com estas exigências pelo estigma da colonização (mesmo que não tenham efectivamente colonizado os países em causa o rótulo de países rico/mau e pobre/vitima já não devia pegar no século XXI.)

Quando a França lançou politicas de natalidade com subsídios atribuídos às famílias que tivessem mais filhos não se viram estas comunidades estrangeiras a reclamar por estes benefícios terem sido canalizados, na sua maioria, para si mesmos e não para as famílias tradicionais francesas. Mas agora que o Estado francês pediu algo em troca já reclamam.

Em bom português, quem está mal muda-se e quem está em casa alheia adapta-se tanto aos benefícios como às exigências que lhes fazem em troca.

Tiago Alexandre Maurício disse...

Temo que esta questão não seja tão linear quanto um mero preconceito ocidental, nem tão simples como uma imposição politicamente correcta. Vários comentários há a fazer para esclarecer a ambiguidade da questão, e o erro que qualquer presunção manifestamente unipolar poderá acarretar.

1. Caso os Estados fossem unidades políticas totalmente isoladas da comunidade internacional que os circunda, seria de admitir a particularidade consuetudinária que, legítima ou ilegítima, admitisse uma regulamentação tão rígida em relação a uma questão fundamentalmente pessoal. Embora disséssemos totalitário, este Estado encontrar-se-ia na perfeita capacidade de impor a proibição do hijab sem, com isso, influenciar a sua participação na comunidade internacional. No entanto, não é isto que observamos.

2. Sendo a comunidade internacional um sistema de gestão inter-dependências e inter-relacionamentos entre entidades políticas soberanas, e não-soberanas, o seu ordenamento e estabilidade provém necessariamente do estabelecimento de normas e princípios que independentemente da sua formalidade, assumem carácter de alguma obrigatoriedade, mais não seja pela sua repetição ao longo dos tempos. De certa forma, sistemas internacionais rígidos determinam essas normas por directório, enquanto que sistemas mais flexíveis e pretensiosamente universais admitem a negociação das mesmas, que assim se manifestam mais abrangentes e tolerantes à mudança e diferença intra-sistémica. A Declaração Universal dos Direitos Humanos são disso exemplo, e a actual comunidade internacional assenta nesse pressuposto, o qual a ONU advoga.

3. Admitindo que 1. é manifestamente falso, e 2. empiricamente verdadeiro, somos obrigados a reconhecer não só a importância que essa flexibilidade tem no relacionamento entre os Estados, como ainda o valor intrínseco que existe em respeitarmos o diferente e recusarmos excessos ou violações declaradas desse princípio da multiplicidade cultural, também designados por fundamentalismos.

4. Logo, será fundamentalismo aceitarmos escolhas pessoais, mesmo que factores culturais, religiosos, sociais, políticos ou económicos concorram para a manifestação da minha vontade pessoal, ou será antes fundamentalismo recursarmos escolhas alheias, que estranhas, se afigurem como ameaças à estabilidade social?

Receio bem que a História e a Razão provem estar do lado daqueles que cultivam a tolerância e respeitam a diferença, pois respeitarmo-nos a nós próprios passa por respeitarmos os outros, e nesses outros vemos reflectida a nossa própria imagem. Ou não serão os outros apenas outros para os nossos, e estes mesmos outros para aqueles?